domingo, 21 de novembro de 2010

O meu coração não tem muitas assoalhadas.

O meu coração não tem muitas assoalhadas. Na realidade, o meu coração é um T0, onde tu entras e sais, e bates com a porta, e berras, e partes vidros, cada vez que te apetece. Tornaste-o na casa que usas como te apraz, sem te preocupares comigo. Entras e sais conforme queres. Usas-me a teu jeito. Agarras-me e aqueces-me quando precisas de mim. Agarras-me e aqueces-me quando achas que me vais perder. E eu deixo. Deixo, porque enquanto vais, eu sei que voltas, sempre. Sei que abres sempre a porta com a mesma cara, com o mesmo cheiro, com o mesmo beijo. Sei que voltas sempre, sem muitas demoras. Sem sequer me deixares entender porque partiste, ou porque não me deixas partir a mim. Sem me deixares perceber o porquê de teres voltado. O porquê de voltares sempre. E o porquê de eu te esperar sempre da mesma forma e te deixar ficar, sempre.
O meu coração não tem muitas assoalhadas porque só lá moras tu e tu és a minha casa cheia, sem espaço para mais nada, sem precisar de mais nada. Tu és a minha alegria, o meu amor.

domingo, 14 de novembro de 2010

Não devia. Não queria. Não quero.

Sinto que me voltei a apaixonar, e não devia. Não queria. Não quero. Não sei lidar com isto, outra vez. Não quero saber lidar com isto, de novo. Enches-me a vida, a alma, o dia, de luz, de cor. Tornaste-te no sol, na lua, nas estrelas, no mar. Tornaste-te a justificação para tudo, tornaste-te a justificação para a falta de tudo. Sinto o peito apertado quando não estás, sinto-o ainda mais apertado quando chegas. Tenho um medo terrível de falhar e um medo ainda maior de te perder.
Não sei ao certo como aconteceu, nunca sabemos. Sei que sem dar por isso, a tua companhia, o som da tua voz, o cheiro da tua pele, eram um vício.
Tocas-me a alma como quem toca em mãos. Arrancas-me sorrisos, sem justificação. Perco tempos infindáveis a admirar cada traço do teu rosto, enquanto não vês. As vezes até, enquanto dormes. Gosto de sentir o toque suave das tuas mãos, enquanto finjo dormir, e de julgá-lo eterno, mesmo quando conheço da efemeridade dos nossos momentos. Gosto de ver a transparência dos teus estados de humor. Mas não gosto de me ter voltado a apaixonar. Muito menos, de me ter apaixonado por ti.

sábado, 6 de novembro de 2010

Adeus

“Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.”

Eugenio de Andrade

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Madrid

Lavapies. Madrid. 26 Setembro 2010
Foto de Margarida Henriques.